From: Draft (http://projetodraft.com/)

Para início de qualquer conversa, o conselho que se sobressai entre os gestores de fundos de capital de risco que investem em startups (também conhecidos como Venture Capitalists, ou VCs) é parecido: “Nunca monte uma empresa pensando no investidor. São poucos os que realmente conseguem investimento. Se você for empreender, pense sempre em fazer um negócio autêntico, que caminhe sozinho”

A dica acima é de Anderson Thees, um dos sócios da Redpoint e.ventures. Com a experiência de quem já participou de grandes negócios no Brasil, como a venda do Buscapé – negociado em 2009 por 342 milhões de dólares –, há dois anos ele trouxe o fundo do Vale do Silício para o Brasil com um capital de 130 milhões de dólares.

Até agora, 18 startups já receberam aportes da Redpoint, mas Anderson conta que essas empresas selecionadas representam menos de 1% dos planos de negócios que seu fundo de Venture Capital recebe todos os anos. “Investimos em 1 a cada 130. Uma média menor do que a do Vale do Silício, que é de 1 a cada 100”, diz ele. Proporções parecidas foram citadas por Martino Bagini, da Astella Invest; Beny Rubinstein, da Acelera Partners; e por Maria Rita Spina Bueno, que faz parte do grupo de investidores-anjo da Anjos do Brasil (pessoas físicas que investem em empresas em estágio inicial).

Se tem outra coisa com a qual todos os investidores consultados concordam é que o momento do mercado brasileiro é extremamente promissor e ainda e ainda precisa crescer muito. Não é à toa que o número de startups, de aceleradoras e de gente disposta a investir nelas só vem aumentado nos últimos anos. Segundo a Anjos do Brasil, os investimentos-anjo cresceram 25% de 2012 para 2013. O último censo brasileiro da indústria de Private Equity e Venture Capital, feito em 2012, também mostrou um aumento de 35% nos investimentos feitos no país.
Mesmo cada vez mais dispostos a apostar nas startups (cada vez mais alto), os venture capitalists ainda reclamam. “O número de investidores aumenta a cada ano, mas ainda existe no Brasil um déficit de empresas prontas para se investir”, afirma Antonio Amaral, responsável pela área de Relação com Investidores da aceleradora 21212, do Rio de Janeiro, que já acompanhou mais de 50 rodadas de investimento. Ele acredita que ainda é preciso educar melhor os empreendedores para que eles se tornem aptos a receber investimento – não é à toa que a aceleradora viu aí uma oportunidade e criou esse ano a 21212 Academy, com cursos para educar melhor empreendedores. Maria Rita Spina Bueno também acredita que é preciso mais preparação e aprendizado: “Não acredito no mito de que a gente nasce empreendedor. Isso a gente aprende. Para empreender você precisa de capacitação, entender o mercado e concorrentes”
Se a ideia é aprender, anote e siga essa cartilha com as principais dicas dos investidores entrevistados pelo Draft.
1. Seja resiliente
Quanto ao perfil do empreendedor, Maria Rita e os outros investidores também estão com suas opiniões em sintonia. Esperam, acima de tudo, que ele seja apaixonado por seu negócio, que tenha resiliência e esteja por dentro do mercado em que atua. “Procuramos ver sempre qual é a habilidade que o empreendedor tem realmente de implementar o negócio. Se sabe fazer boas escolhas, se consegue admitir suas falhas, aprender com seus erros. E se ele se mostra conectado com os problemas dos clientes”, afirma Beny Rubinstein, um dos sócios da Acelera Partners, pós-aceleradora que funciona dentro do Microsoft Technology Center, em São Paulo, e tem também seu próprio fundo de venture capital. Para Anderson Thees, da Redpoint, a palavra-chave que resume esse perfil ideal do empreendedor é perseverança.
2. Ofereça o plano certo para o investidor certo
“Antigamente, investimento era uma caixa preta. Quem mandava um projeto não sabia porque recebia um sim ou um não. Hoje, a informação é ampla. Sócios de fundos têm blogs, sites em que dizem porque investiram nas empresas, quais as métricas que olham, o que buscam”, afirma Martino Bagini, sócio da Astella Investimentos, um dos principais fundos para early stage no Brasil. Para ele, que costuma investir de 250 mil a 2 milhões de reais em cada empresa selecionada, o grande problema é que os empreendedores não estão fazendo um bom uso dessas informações. “Ao invés de se aproveitar disso, eles ainda estão atirando no escuro. Mandam e-mail pra todo mundo e para ver se vai dar certo”, diz.
3. Escolha o melhor time
Quando perguntados sobre qual era a primeira coisa que olhavam em um plano de negócios, todos os investidores deixaram claro: o time que está por trás dele. “Pensamos sempre em um tripé clássico: mercado, time e produto”, afirma Martino Bagini, da Astella. E completa: “Mas sabemos que uma equipe medíocre com um bom projeto pode não dar certo. Já uma equipe boa com um projeto medíocre é capaz de melhorar seu produto, sobreviver a oscilações do mercado e tem muito mais chances de crescer”.
4. Prepare-se bem
Uma coisa que qualquer investidor deseja é saber que seu investimento vai ter retorno. “Por isso é importante ter um plano claro, com uma solução muito bem definida, vários cenários possíveis a serem seguidos e uma boa projeção financeira, que mostre resultados”, afirma Antonio Amaral, da aceleradora 21212, do Rio de Janeiro. Para ele, que é responsável pela capacitação para captar investimento de todas as startups da aceleradora, fazer o bom e velho networking também é essencial. “O empreendedor precisa estar sempre investindo em criar uma rede forte e identificar quem são os investidores que têm afinidades com o negócio dele”, diz. Outra dica de Antonio é que o empreendedor tenha claros os seus objetivos e saiba os números do seu negócio e da concorrência na ponta da língua. “É importante saber vender sua ideia em 20 segundos, seja numa conversa de elevador ou enquanto troca cartões com um possível investidor em um evento”, diz.
Networking, sempre: empreendedores da 21212 conversam com mentores e investidores em evento da aceleradora
Networking, sempre: empreendedores da 21212 trocam contatos e conversam com mentores e investidores em evento
5. Faça um bom plano, mas não se apegue a ele
Há quem diga que plano de negócios não está mais com nada, que agora o melhor é fazer só o canvas. Para Maria Rita Spina Bueno, da Anjos do Brasil, o que importa mesmo é saber se adaptar. “É preciso saber que tudo isso são só instrumentos, que a gente usa dependendo do momento e da necessidade”, afirma. Segundo ela, todo tipo de plano funciona só como guia, para que possa ser adaptado de acordo com a necessidade. “O bom do brasileiro é que sempre fomos lean. Como nunca tivemos muito recursos, sempre precisamos fazer e refletir ao mesmo tempo, e essa sinergia entre os dois é ótima”, diz.
6. Ter um modelo de negócios nem sempre é essencial, mas ajuda
Está aí um ponto em que os VCs entrevistados divergem. Para alguns, empresa interessante para se investir é aquela que já apresenta uma fonte de renda confiável, e que poderia sobreviver sem o investimento. “Tem investidor que já quer ver nível de receita, outros sabem que em certos estágios de alguns negócios a monetização compete com o crescimento”, afirma Anderson Thees. O importante é que o empreendedor sempre mostre aos investidores ideias de possíveis caminhos a serem seguidos. “Sabemos que uma boa empresa pode mudar seu modelo de negócios a qualquer momento, ou como se diz no jargão americano, ‘pivotear’”, diz Beny Rubinstein.
7. Faça inovação de verdade
“O empreendedor brasileiro muitas vezes não entende o que é inovação. É claro que existem muitos tipos de inovação, mas não é tão simples assim inovar”, diz Maria Rita Spina Bueno. A inovação pode estar em um produto, em um serviço ou até em um processo. Mas precisa estar em algum lugar. “Muita gente diz que seu negócio é inovador, mas quando vamos ver, ele só foi lá e fez uma alteração simples.” Para colocar a palavra “inovação” no plano de negócios, portanto, é bom se certificar antes de que ela exista mesmo. Investidores, que estão acostumados a olhar atentamente para várias empresas, costumam identificar facilmente o que é realmente inovador. Ao mesmo tempo, não há nada de errado em empreender fazendo um negócio que já existe, mas de uma forma melhor. Basta lembrar que Facebook e Google são empresas que começaram fazendo algo que não era novidade. “Não vejo problema se o empreendedor copia uma ideia lá de outro país, por exemplo, mas fazendo isso de forma defensável, se adaptando ao mercado daqui”, afirma Anderson Thees.
8. Escolha bem os seus sócios
Mesmo que eles forem apenas investidores. Beny Rubinstein, da Acelera Partners, conta que já deixou de investir em uma empresa que tinha um ótimo projeto por causa de um sócio. “Quando fui ver, o nome daquela pessoa estava lá, e ele não fazia nada na empresa, não sabia nada do mercado. Mas tinha uma porcentagem importante do negócio e dava palpites mesmo assim”, conta. Portanto, na hora de escolher os sócios, é importante trazer alguém que possa complementar a equipe, mesmo que isso implique ter que apertar mais os cintos.
9. Invista em áreas que estão em crescimento
Negócios B2B (business to business), educação online, ferramentas para saúde, comércio eletrônico, moedas digitais, aplicativos mobile. Todas essas foram áreas citadas por um ou mais gestores de fundos como sendo especialmente interessantes. Como conta Martini Bagini, o e-commerce por exemplo é uma área para a qual a Astella têm olhado com mais atenção. “O pedaço do varejo que é digital ainda é pequeno no Brasil, diante da capacidade que nós temos. Mesmo em áreas onde já existem players, ainda há espaço”, diz. Mas independente de qual área se deseja explorar, vale ter em mente o principal conselho de Beny Rubinstein: “Mergulhe de verdade no mercado, entenda o cliente e crie uma solução para um problema”.
E aí, vai encarar? Tem algumas centenas de investidores hoje no Brasil, com alguns milhões no bolso, em busca de um boa startup para investir. Bem que ela podia ser a sua.